Mais produção, menos renda

Atualmente, estamos presenciando na imprensa, diversas notícias sobre recordes e boas estimativas de produtividade no agronegócio nacional. O Brasil se tornou novamente em 2004, o maior exportador de carne bovina do mundo. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que a safra agrícola para este ano poderá ser 13% maior e chegar a 134,9 milhões de toneladas. Entretanto, uma questão incomoda e inquieta os produtores rurais: se há ótima produtividade, onde está a renda do setor?

Situações como a atuação discriminatória da indústria frigorífica no mercado interno de carne bovina; a queda no preço da saca de soja num momento em que se registra mais uma alta nos custos dos insumos agrícolas; e a intenção do Governo Federal de implementar a MP 232, que estabelece o recolhimento de imposto de renda de 1,5% sobre toda a comercialização de produtos agrícolas que ultrapassar R$ 1.164; geram sentimentos de perplexidade e de desconfiança em toda a cadeia produtiva do agronegócio. Será que todos os produtores rurais suportarão estas adversidades?

Responsáveis pelo superávit da balança comercial, a classe agropecuária terá este ano mais um obstáculo a ser vencido. Segundo a agência Estado, os subsídios do governo americano a seus produtores de soja, que foram de US$ 610 milhões em 2004, vão chegar a US$ 3,25 bilhões em 2006. Além disso, os agricultores brasileiros também poderão ser prejudicados com a prática de “dumping” (venda de produtos agrícolas bem abaixo do preço de custo) – bastante comum nos EUA. Então, como poderemos vencer estes obstáculos?

Creio que, esporadicamente, algumas ações são realizadas pelo setor do agronegócio brasileiro. Na verdade, são atos isolados, mas demonstram que quando os produtores rurais se unem tudo fica bem mais fácil. Iniciativas já adotadas como o programa de produção de carne bovina da COROL; ou a criação de outras medidas como a formação de cooperativas entre frigoríficos e produtores rurais (alianças mercadológicas), se espelhando nos bons exemplos da avicultura e da suinocultura; o estímulo para a vinda de novas empresas internacionais (grupos sólidos); um combate mais árduo de nossas autoridades governamentais com relação aos subsídios agrícolas; entre outras, poderiam melhorar a rentabilidade do setor e torná-lo mais justo.

Quero alertar que a palavra “união” não deve ser empregada com falsas promessas e discursos vagos, e sim, com atitudes. Basta de hipocrisia! Se não querem ajudar o homem do campo a colocar a comida na mesa dos lares brasileiros, peço um favor: não atrapalhem. Só assim, com certeza, teremos mais do que uma boa produtividade por hectare: conseguiremos distribuir eqüitativamente a renda entre todos os agricultores brasileiros e, consequentemente, garantir a geração de novos empregos no país.

Luiz Meneghel Neto
Produtor rural e proprietário da Estância 3M